Estado - O que o sr. acha do novo slogan do governo, "exportar ou morrer", lançado pelo presidente FHC? Eugênio
Staub - O Brasil veio caminhando para o abismo há vários anos, particularmente depois dessa loucura cambial que foi feita, no primeiro mandato do presidente. Resolveu-se o problema estrutural e dramático da inflação, mas criou-se um problema seríssimo de estrangulamento cambial. "Exportar ou morrer" é uma frase feliz, no sentido de dramatizar a crise da dívida.
Estado - Não é um tanto de mau gosto?
Staub - Não acho que seja de mau gosto. O que o presidente disse, e principalmente o ministro Sergio Amaral, é absolutamente pertinente e correto, o que foi uma surpresa. Mas há um ceticismo generalizado em relação ao governo. Não tem a ver com o que foi dito, mas com a dúvida legítima sobre se vai ser implementado, ou se é mais uma frase de efeito.
Estado - Em conversa recente com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, ele disse: "Quem exporta não é o governo, mas o empresário; governo e empresariado deveriam trabalhar juntos."
Staub - O ministro Malan disse trabalhar junto?
Estado - Foi a frase.
Staub - Puxa. Esse é outro grande progresso. Não há governo, que eu me lembre, e eu já não sou moço, que tenha estado tão afastado dos empresários como esse. Nenhum. Nem Fernando Collor, Zélia e Cia.
Estado - Afastado como?
Staub - No sentido de trabalhar junto. Existe um preconceito contra o empresariado, que o governo disseminou e não há condição de você sugerir alguma coisa, de você debater um trabalho conjunto.
Estado - E por quê?
Staub - Porque essas pessoas nunca lidaram com a economia real. Conhecem a economia, os assuntos na teoria, porque estudaram e muitos deram aulas, ou porque transitaram em outros mundos. Alguns até com sucesso no mercado financeiro. Mas a economia real não se constrói desse jeito. Na economia real, é preciso descer ao chão de fábrica e discutir por que as coisas não funcionam.
Estado - O empresariado brasileiro não deu motivo para que existisse esse preconceito? Até o governo militar, havia uma política de favorecimento a determinados grupos. No governo Fernando Henrique, deu-se o oposto. Ainda há uma imagem ruim de que os empresários querem um sistema fechado, de proteção
Staub - O que existiu no governo militar foi uma estratégia industrial, que não foi do governo militar. Essa estratégia industrial começou com Getúlio Vargas, passou por Juscelino Kubistcheck. Por sete ou oito governos seguidos, houve uma estratégia industrial chamada de substituição de importação. Porque o Brasil não tinha divisas. Até 1983, o Brasil não tinha divisas. Havia déficit comercial, faltavam recursos externos para o investimento, que era essencialmente nacional. A estratégia industrial não foi feita às costas da sociedade. O BNDES vai fazer 50 anos no ano que vem. Quando os governos militares chegaram, em 1964, ele já tinha 15 anos. Já havia essa cultura e quem a fez foi o Roberto Campos. Mesmo com os militares, quando se assinava um contrato, um projeto, quando se oferecia um incentivo, taxas de juros mais baxas, prevalecia o critério técnico.
Estado - Mas no final dos anos 80 não havia brasileiro, fora do meio empresarial, que não visse uma certa arrogância da Fiesp na relação com o governo. É verdade que a estratégia industrial é anterior aos militantes, mas eles acentuaram a concepção de que a negociação é entre duas partes, quando a sociedade é de, no mínimo, três partes.
Staub - Primeiro, generalizar a Fiesp é um equívoco. Eu fui um dos que saíram da Fiesp para fazer o Iedi. A Fiesp não era dirigida por empresários industriais, mas por uma tecnoburocracia, e a Fiesp daquela época tinha virado quase uma estrutura estatal, antiquada. O industrial verdadeiro deixou de ir à Fiesp nos anos 80. Agora está voltando, porque ela se renovou. É bom vocês falarem disso, porque existe essa visão errada, como existe uma visão errada sobre o Iedi.
Estado - Não tem razão o presidente, que chamou o Iedi de arcaico?
Staub - Nenhuma razão. Porque não somos arcaicos. Em 1989, saímos da Fiesp, fizemos uma ONG, cacifamos essa ONG, chamamos acadêmicos e o que dissemos na partida foi o seguinte: o modelo de substituição de importações esgotou, vai ser preciso fazer uma abertura, a globalização vem aí. Isso foi antes do Collor, quando nem se sonhava que ele viesse a ser candidato, presidente, e que a abertura virasse um tema. Nesses 12 anos, o Iedi produziu uma enorme quantidade de trabalho e neles se vê que o Iedi teve a capacidade de enxergar à frente.
Estado - No que acertou?
Staub - Crise cambial, por exemplo. Em setembro de 1994, apenas três meses depois da troca da moeda, fomos ao presidente, então candidato, e dissemos: "não pode continuar assim, essa valorização do real vai destruir a indústria, vai destruir a balança comercial". Qual foi a resposta? Alguns, como o presidente, disseram: "Fiquem tranqüilos, vou resolver. Isso é coisa do Ciro Gomes." Mas muitos economistas diziam na época: déficit comercial é bom.
Estado - O presidente do novo discurso virou arcaico?
Staub - Não, nós é que somos modernos. Arcaico virou o discurso dele, o anterior. É uma coisa sem nenhuma base, acusar-nos de arcaicos. O fato é que não há receptividade, não há diálogo com o governo, porque há essa coisa de que a empresa brasileira, e a paulista especialmente, é ineficiente.
Estado - Dê exemplos dessa falta de diálogo.
Staub - Recentemente, fizemos, com a Nokia, um estudo sobre a balança comercial de eletroeletrônicos, que tem um déficit explosivo, de US$ 8,5 bilhões por ano. Chamamos os fornecedores mundiais para um encontro em Manaus, levamos 12 deles para Brasília. Passaram uma tarde inteira no Ministério do Desenvolvimento. O presidente do BNDES, Francisco Gros, estava lá, disse que dava financiamento, o que eles quisessem. Eles não querem dinheiro do BNDES, que é caro. Sabe qual foi a primeira questão deles? Desburocratização do trânsito das mercadorias. Não é possível que não dê para fazer isso.
Estado - Explique melhor.
Staub - Há uma burocracia enorme nos processos. Múltiplos ministérios, múltiplos papéis, poder ao burocrata que está na alfândega, tudo isso para nada. Hoje, no mundo globalizado, no mundo do 'just in time', das empresas que operam com estoque zero, precisamos tratá-los como somos tratados em Taiwan, em Cingapura. As mercadorias entram e saem à vontade. O governo cobra pelo valor adicionado. Existe uma malfadada idéia chamada PPB-Processo Produtivo Básico, que trata do índice de nacionalização. É válida para aparelhos, mas não para componentes. Não dá para dizer para o industrial que o componentezinho será feito desse ou daquele jeito. O que se tem de cobrar dele é balança comercial. Vai importar 100? OK, quanto vai exportar?
Estado - O presidente e o novo ministro do Desenvolvimento voltaram a usar a expressão política industrial, tão execrada nos últimos anos. Mas o que seria uma política industrial hoje?
Staub - Política industrial é parte do plano de desenvolvimento de um país. São ações, medidas e, se necessário, subsídios, financiamentos. Mas nunca no Iedi nós falamos em aumento de alíquotas. Certas pessoas dizem que queremos aumentar alíquotas, fechar o mercado. Nós fomos os primeiros a dizer, antes do Collor, que o mercado tinha de ser aberto.
Estado - Se a política de substituição de importações não dá mais, qual política industrial pode ser feita num mundo globalizado?
Staub - Ninguém lembra mais que foi o Iedi que identificou o Custo Brasil, que o juro alto era impeditivo à atividade de capital intensivo, que o sistema tributário punia a produção. Esse discurso, de todo modo, foi incorporado ao imaginário nacional. Depois, analisamos 11 países e mais o Brasil. Descrevemos, país a país, o que se faz em Ciência e Tecnologia, o que se dá para as empresas a fundo perdido, qual é o incentivo à exportação, qual o trabalho de desenvolvimento de recursos humanos, que às vezes o governo banca.
Estado - Ou seja, o mundo se globalizou mas os países não abriram mão de ter suas políticas industriais.
Staub - Aqui não existe política de desenvolvimento e, portanto, não existe política de desenvolvimento industrial. Não temos uma agenda nacional hoje. Qual o projeto deste país? Onde queremos chegar? O que temos é uma agenda correta imposta pelo FMI, mas que nos foi imposta porque não soubemos administrar nossas contas.
Estado - O País deve importar uma política industrial?
Staub - Não, temos que ter a nossa. Houve a desvalorização em janeiro de 99, mas as exportações não reagiram ao nível necessário. Entre 83 e 94 tivemos o terceiro maior superávit comercial do mundo. O que está acontecendo? O problema é basicamente o seguinte: o Brasil não está produzindo o que o mundo quer comprar.
Estado - Normalmente, países de grandes dimensões não são grandes exportadores, como os Estados Unidos, que exporta 12% do seu PIB. Como se incentiva o empresário brasileiro a pegar o avião, vencer a burocracia e ir ganhar mercado lá fora, quando o mercado cresce internamente?
Staub - O incentivo já foi feito, o mercado fez. É o câmbio. Não existe coisa melhor que essa taxa de câmbio para o exportador. Agora, é preciso identificar oportunidades, que não são as que a Coréia viu nos anos 60. No curto prazo, são necessárias algumas medidas que eu duvido que o governo saiba fazer.
Estado - Dê um exemplo.
Staub - O ministro Sergio Amaral deveria chamar os 50 ou 60 maiores importadores e exportadores, o que dá umas 70 empresas, em audiências de 15 minutos, um a um. Depois, os receberia para discutir as medidas necessárias. Se o ministro fizer isso, põe US$ 2 bilhões ou US$ 3 bilhões de saldo na balança a curtíssimo prazo.
Estado - O sr. acha que isso vai acontecer?
Staub - Acho que não, embora o discurso de posse do ministro seja brilhante. Nele, fala em agir com as empresas multinacionais para gerar uma balança positiva, fala em apoiar a substituição competitiva de importações. Isso é o discurso do Iedi.
Estado - E como ficamos?
Staub - Sabe quem vai salvar a exportação brasileira? São as empresas estrangeiras. E por quê? Porque elas têm network: 60% ou 70% das relações são entre companhias. Conheço uma empresa que é só desburocratizar e ela traz do México para o Brasil a exportação que vai para os EUA. Só aí são US$ 500 milhões por ano.
Estado - Por que o governo não toma a iniciativa. Onde está o problema?
Staub - A raiz do problema é que há uma discussão muito superficial no País sobre tudo. Essa discussão da sucessão, por exemplo, é ridícula. Quem o presidente vai escolher? Isso parece coisa de comadre. O importante é discutir programa.
Estado - Qual é o melhor programa?
Staub - O único programa que eu vi, que tem defeitos importantes, mas tem o mérito de ser um programa, é o do PT. O partido do governo não está discutindo programa.
Estado - Provavelmente porque vai continuar com o programa atual.
Staub - É impossível continuar com esse programa, ele vai bater na parede. A única saída é gerar superávit comercial, por causa da vulnerabilidade externa. Hoje o mundo financeiro está com o foco na Argentina. Se a Argentina quebrar, não vai melhorar aqui. Vai piorar. Vão passar a olhar nossa fragilidade externa.
Estado - Estamos na linha de tiro de novo?
Staub - Sim. E não é por causa da Argentina ou da desaceleração nos EUA. Temos contas que não fecham. A aposta do governo é que o Investimento Externo Direto ia tapar o buraco da balança comercial e do balanço de pagamentos. Mas essa aposta não vai funcionar.
Estado - O Brasil tem aço, ferro, suco de laranja, produtos do agronegócio. Mas só isso compõe uma pauta de exportações num país da dimensão e pretensão do Brasil?
Staub - É o que o Iedi está dizendo e por isso estou sendo criticado. O Iedi diz sim que é preciso ter produto de alto valor agregado na pauta.
Estado - Como o governo começou a falar essas coisas, o discurso do Iedi prevaleceu?
Staub - Nossas idéias não prevaleceram, os fatos estão prevalecendo. Só que esse discurso está cinco anos atrasado. Não digo sete porque que era preciso ter certeza de que a inflação estava derrotada.
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