O futuro do Brasil está lá fora. É só agir e não errar
ALBERTO TAMER
O Estado de S. Paulo - 30 de maio de 2004

A economia brasileira cresceu em dois trimestres consecutivos. Há diversas formas para se calcular a variação do PIB. Uma é compará-lo com o trimestre anterior, que já registrava recuperação. Aí temos um crescimento de 1,6%.

Outra, seria confrontá-lo com o mesmo período do ano passado e registramos mais 2,7%. Há também crescimento anualizado, e aí alcançamos mais de 6%. De qualquer forma, a conclusão é a mesma: a economia brasileira está crescendo há seis meses. E os dados do IBGE mostram que isso se deve essencialmente ao aumento das exportações sustentadas pela agropecuária.

Já registramos isso em várias colunas. Cito apenas alguns títulos como exemplo: Cenário externo clareia e dá nova chance para o Brasil crescer (6 de maio). Não há crise, mas turbulência. Brasil pode superar e crescer. (2 de maio). Só mais exportação agrícola segura pancada de Greenspan (22 de abril). Sempre insistimos em que o Brasil tem quer buscar lá fora o mercado que não existe aqui. E sempre dissemos que esse era o caminho que o ministro Furlan e seu colega Roberto Rodrigues, mesmo atropelados em Brasília, estavam seguindo.

O que nos dizem os dados do IBGE divulgados quinta-feira, registrando uma expansão de 1,6% no primeiro trimestre do ano sobre o último trimestre de 2003? Esse resultado positivo deve-se basicamente a um aumento de 19% das exportações, se comparado com o primeiro trimestre do ano anterior. O consumo interno, das famílias (que representam 60% do PIB) continuam pífios, 1,2%, nesses períodos e - atentem para este número - apenas 0,3% no primeiro trimestre deste ano sobre o último do ano passado. Ou seja, apesar do débil desempenho do mercado interno, a economia recuperou-se nesses dois trimestres.

Resumindo: a retomada econômica que está ocorrendo se deve essencialmente ao aumento das exportações. Fomos buscar lá fora o que não há. E vamos continuar assim até o fim do ano porque o consumo interno só crescerá com aumento de emprego. E este, no caso atual do Brasil, depende de produção voltada para o mercado exterior.

"O setor externo continuou dando uma dinâmica positiva ao PIB. Na comparação anual, o crescimento das exportações foi de 19,3%, com um impacto direto de 3,3 pontos porcentuais (no PIB)", afirma o economista Juan Jensen, da Tendência. A participação das exportações que, entre 2002 e 2003, era de 15,8% do PIB neste ano deve chegar a 17%. A Tendência está prevendo para este ano exportações da ordem de US$ 86,5 bilhões e um superávit comercial de US$ 28 bilhões.

Vai dar? Há mercado?

Estas são as grandes dúvidas. O Brasil poderá manter este ritmo de vendas externas que, ainda neste ano, gerarão empregos e sustentaram a reativação econômica nos dois últimos trimestres? No fundo, tudo gira, no momento, em torno desta questão.

A resposta está em uma série de números da OMC que mostram o caminho a seguir. Perdoe-me, leitor, se o canso com mais números, mas eles são "essenciais" para prever o futuro, neste ano, da economia brasileira.

  1. As exportações mundiais de bens no ano passado somaram US$ 7,2 trilhões. Incluindo serviços, chegam a US$ 9,3 trilhões. A OMC prevê para este ano, ainda não oficialmente, um crescimento entre 6% e 7%. Nem preciso lembrar que mesmo se chegar a US$ 90 bilhões, o Brasil continuará representando 1% das vendas absorvidas pelo mercado mundial.
  2. Também em 2003, os EUA exportaram US$ 724 bilhões e importaram US$ 1,3 trilhão em mercadoria (deixando de lado os US$ 200 bilhões em serviços). Nós exportamos para eles, em números redondos, apenas US$ 17 bilhões...
  3. A União Européia exportou no ano passado US$ 2,8 trilhões e importou US$ 2,9 trilhões. Parece ser o mercado ideal, mas não é. Isso porque as exportações totais, US$ 1,8 trilhão, foram feitas entre os 15 países do bloco europeu. Sobrou para os demais parceiros mundiais apenas US$ 1,1 trilhão. E, destes, US$ 293 bilhões (24,2%) destinaram-se aos EUA. Em 2003, o Brasil exportou para a comunidade européia... US$ 18,1 bilhões....
Chega de números!

Sim, vamos aos fatos, que trazem a resposta para continuar crescendo até o fim do ano. O principal é que, além das novas áreas da Ásia, "precisamos urgentemente" explorar ao máximo o mercado americano por duas razões:

  1. É o mais aberto. Cerca de 80% dos produtos estão isentos de barreiras ou outras restrições.
  2. É o mercado que mais cresce no mundo e registra maiores déficits comerciais, acima de US$ 540 bilhões. É um mercado ainda inexplorado pelo Brasil.

O segundo fato é que o mercado europeu está fechado em seu próprio bloco, agora com mais 10 países, pelo menos 6 dos quais francos competidores do Brasil.

Conclusão: dá para continuar crescendo sim, mas somente se o Brasil agir com os EUA e a Europa como está fazendo agora com a China e o bloco asiático.

Só que é outro o diálogo com os americanos, petulantes, com o peso do seu mercado, e os europeus, maliciosos e arredios, pressionados pela recessão.

Ambos respondem com 50% das nossas exportações, mas não precisam, como a China, de alimentos para sustentar suas ricas populações.

Dar um contra na Alca e iludir-se com a conversa UE- Mercosul é impedir que a economia continue crescendo nos próximos meses. É parar o Brasil. A curto prazo, está lá o mercado que não temos aqui. A China e a Ásia nascentes virão somar.

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