Atenção à micro-economia
Paulo R. Feldmann
Diretor da consultoria BearingPoint e professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP.
Gazeta Mercantil - 20 de março de 2004

Nos debates sobre os grandes temas nacionais, parece que a redenção econômica brasileira depende apenas da escolha certa entre três caminhos:

  • Desvalorização do real para estimular exportações,
  • redução da Selic e
  • manutenção do atual câmbio e taxa de juros.

Porém, a ciência econômica e o bom senso indicam haver possibilidades muito mais amplas para a conquista do crescimento, prosperidade, distribuição mais justa da renda e redução do desemprego. É insensato submeter o destino de uma nação imensa e potencialmente rica à mesmice de três alternativas meramente monetaristas, em especial se considerarmos o fato de que todas elas, embora apresentem algumas vantagens, implicam riscos e não suscitarão crescimento sustentado a taxas acima de 4% ao ano, como na China e Índia.

Deveríamos tentar entender como esses dois países conseguiram esse notável feito. Então, perceberíamos que ambos jamais foram reféns de políticas macro-económicas semelhantes às genericamente implementadas nos emergentes latino americanos.

Na China, por exemplo, há muitos anos o governo fez levantamento acerca dos principais gargalos existentes nas cadeias produtivas e criou mecanismos para eliminá-los. Assim, cada setor recebeu apoio diferente. Alguns tiveram financiamentos subsidiados; outros, incentivos fiscais; e a maioria, apoio à formação de mão-de-obra. A Índia tem política industrial há 15 anos. Todos conhecem as regras.

Há poucos anos, o governo lançou programa de micro-crédito, pelo qual os pobres puderam equipar-se com bens capazes de gerar produção e renda (máquinas de costura para alfaiates, bicicletas para entregadores). Esse programa é um dos responsáveis por crescimento anual médio de 6,5 % nos últimos cinco exercícios. Boa parte do problema brasileiro está no fato de que nossos economistas e formuladores de políticas de desenvolvimento só têm dado atenção ao macro-económico. Este é importante, mas sua solução não é suficiente. É fundamental focar o micro-econômico em nível das empresas, ajudando-as no aumento das exportações ou na obtenção de tecnologia e mais produtividade.

Nesse sentido, o governo tem muito a fazer. Não existe país competitivo sem empresas produtivas. É vital, por exemplo, definir quais setores têm vantagens que lhes permitam sucesso no mercado internacional. Para estes deve ser feita análise da cadeia produtiva, identificando se todos os gargalos, como o atraso do nível tecnológico de um dos supridores de matéria prima. Não seria ótimo se o governo facilitasse a modernização tecnológica? Para alguns setores, principalmente nos em que predominam micro e pequenas empresas, o problema pode estar na incapacidade dos administradores, que não sabem lidar com questões de comércio exterior. Não seria o caso de o governo criar programa de capacitação?

No Brasil, sabe-se que as micro e pequenas empresas respondem por menos de 5% do total das exportações. Por que não fazemos como a Itália, onde pequenas e micro-empresas têm a maior parcela das exportações e são objeto de esforço de coordenação em cada setor produtivo no sentido da criação de cooperativas voltadas às vendas externas?

Bem-sucedido exemplo é a chamada Terceira Itália: em vilas e cidades, na região Central e Noroeste do país, formou-se rede de pequenas indústrias, criada nos anos 70. São fábricas de calçados, cerâmica, têxteis e confecções, motocicletas, equipamentos agrícolas, auto-peças e máquinas- ferramenta.

Hoje, as tecnologias da informação favorecem modelos de cooperação , alianças estratégicas e redes internas e externas, como nos "keiretsu" japoneses, nos "chaebol" sul-coreanos e no "guanxi" chinês. Michael Porter, professor de Harvard (Estados Unidos) diz que não são os países que fazem sucesso na economia mundial, mas sim as suas empresas.

Conclusão óbvia: temos de atuar favorecendo nossas empresas a conquistarem condições de atuar no mercado mundial.

O neoliberalismo fracassou em praticamente todos os países em desenvolvimento. Até economistas norte-americanos importantes, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz, defendem que os governos devem intervir na economia para favorecer as empresas. Sem a indução do Estado, corremos o risco de ficar estagnados.

Já no início da década de 90, quando advento da globalização - teórica e filosoficamente ancorado no neoliberalismo - tornou a competitividade uma exigência superlativa, estabelecendo novas regras de sobrevivência das empresas, o escritor alemão Robert Kurz, no livro "Colapso da Modernização", fazia incisivo alerta: "A concorrência no mercado mundial torna obrigatório um novo padrão de produtividade, configurado pela combinação de ciência, tecnologia avançada e investimentos".

É acesso a esse padrão, como ocorre na Índia, China e outros emergentes, que deve ser aberto e facilitado às pequenas e micro-empresas brasileiras. E não podemos esperar mais uma década para cumprir essa missão.

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